Sexta, 12 de Março de 2010
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O cárcere das almas PDF Imprimir E-mail
Escrito por Waldson Muniz   
Segunda, 08 de Dezembro de 2008 01:46

O século vinte viu chegarem ao poder nazismo e comunismo, duas ideologias em essência congêneres, a despeito dos seus diferentes aspectos exteriores. Citado por Alain Besançon em A Infelicidade do Século (1), um estudioso francês classifica nazismo e comunismo de gêmeos heterozigotos: o nazista se considera um artista, o comunista, um virtuoso; o nazista vê todo o mal do mundo decorrer da existência de raças inferiores, o comunista, da propriedade privada; ambos se apresentam à pobre e comum humanidade como a perfeição social, moral e intelectual; ambos se baseiam na idéia da total impossibilidade de composição entre "nós" e "eles". A vitória de suas propostas deve fazer-nos pensar, com profundidade, na observação de Hayek, para quem "quase por uma lei da natureza humana, parece ser mais fácil aos homens concordarem sobre um programa negativo - o ódio a um inimigo ou a inveja aos que estão em melhor situação - do que sobre qualquer plano positivo" (2). É dos fundos mais baixos da alma humana que emergem esses dois projetos sociais, região para a qual pretendem levar a todos.

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Graças à intensa e diligente aplicação de técnicas de propaganda tão sutis quanto eficientes e de todo insuspeitadas pelo grande público, a esquerda conseguiu não apenas que fosse esquecida sua gênese comum com o nazismo mas também - e principalmente - que, aos olhos da gente comum, comunismo e nazismo parecessem opostos inconciliáveis: um assumiu o papel de ser a mais tirânica e perversa forma de governo, o outro, o de ser a mais pura e democrática, sob a qual e apenas sob a qual, é possível o pleno florescimento material e espiritual. Anos e anos de propaganda sub-reptícia envolveram a esquerda numa couraça de honradez, avanço e bondade, ao mesmo tempo que associaram a direita a retrocesso, obscurantismo e insensibilidade. Hoje, as duas reputações são resistentes a todos os argumentos e fatos.

Dois episódios recentes exemplificam esse estado de coisas: enquanto causou imenso e justo rumor a foto em que o jovem príncipe britânico apareceu com a cruz suástica nazista num braço, fez-se absoluto silêncio acerca das imagens de campos de trabalhos forçados para opositores do regime comunista coreano. Num caso, tem-se a visão do símbolo, ao qual logo se associa todo o mal que produziu aquele insano regime; noutro, a do mal em curso, a produzir vítimas. Para um, todo tipo de reação, da mais sincera, que é a de quem sofreu na pele o jugo nazi-fascista, até a mais oportunista, que é a de quem quer apenas vender jornal.

Na introdução da biografia de Stalin (3), Dmitri Volkogonov alerta o leitor sobre a mais importante característica do "guia genial dos povos": "Tenhamos sempre em mente que foi um mestre em fazer passar seus erros, omissões e crimes como conquistas, sucessos, visão, sabedoria e constante preocupação com o povo". Sem o acréscimo de uma vírgula sequer, a definição serve, à justa, para toda a esquerda. O mesmo espírito moveu Bertolt Brecht a ensinar: "Quem luta pelo comunismo tem de poder lutar e não lutar; dizer a verdade e não dizer a verdade; prestar serviços e negar serviços; manter a palavra e não cumprir a palavra; enfrentar o perigo e evitar o perigo; identificar-se e não se identificar. Quem luta pelo comunismo tem de todas as virtudes apenas uma: a de lutar pelo comunismo." Também é do renomadíssimo dramaturgo a frase que Anne Applebaun cita em Gulag, uma história dos campos de prisioneiros soviéticos (Ediouro, 2004), a propósito da matança de inocentes na União Soviética: "Quanto mais inocentes eles são, mais merecem morrer"

Leitura obrigatória para todo aquele que deseja saber o que foram os anos stalinistas e pós-stalinistas, o livro de Applebaun é em tudo impressionante. À questão de se ter apagado das mentes o que é o inferno comunista ela se refere, relatando o que viu num passeio por Praga, então recentemente democratizada. "Expunham-se pinturas de ruas adequadamente bonitinhas, junto com pechinchas de bijuterias e com chaveiros com a palavra "Praga". Em meio ao bricabraque, podia-se comprar parafernália militar soviética (quepes, insígnias, fivelas) e pequenos "buttons", as imagens de Lênin e Brejnev que os escolares soviéticos outrora prendiam nos uniformes. A cena me pareceu estranha. A maioria dos que compravam esses objetos era de americanos ou europeus ocidentais. Todos eles ficariam enojados com a idéia de usar uma suástica. No entanto, ninguém ali fazia objeções a ostentar a foice e o martelo numa camiseta ou num boné. Foi um episódio menor; mas às vezes é justamente por coisas assim que se observa melhor o clima cultural. Pois ali a lição não poderia ter sido mais clara: se o símbolo de uma matança nos enche de horror, o de outra nos faz rir." Assim Applebaun analisa o fenômeno: "A Guerra Fria produziu James Bond e thrillers, mais os russos de gibi do tipo que aparecem nos filmes de Rambo; nada, porém, tão ambicioso quanto a A Lista de Schindler ou A Escolha de Sofia. Steven Spielberg, provavelmente o principal diretor de Hollywood (gostem ou não), preferiu fazer filmes sobre campos de concentração japoneses (O Império do Sol) e sobre campos de concentração nazistas, mas não sobre campos de concentração stalinistas. Esses últimos não conquistaram da mesma maneira a imaginação de Hollywood." Quem leu a obra Aristóteles em nova perspectiva (4), sabe a importância da imaginação para o pensamento humano e para o domínio dele. Foi precisamente para esse alvo que, a certa altura do combate, a esquerda voltou suas baterias e não encontrou adversários, já que direita, conservadores e liberais simplesmente não tinham como oferecer resistência no novo teatro de operações, o qual eles desconheciam por completo.

Um exemplo do que pode fazer uma propaganda adequadamente preparada é dado por Anne Applebaun no caso de um prisioneiro, vítima de Stalin, que atribuía todo aquele sofrimento à ação de um dos inimigos do povo, tal qual dizia a propaganda oficial. "O poder da propaganda na URSS era tal", diz a autora, "que freqüentemente modificava a percepção da realidade". Ela também cita Alexander Soljenitsin que, em Arquipélago Gulag, dedica todo um capítulo aos comunistas, que "explicavam a detenção, a tortura e a reclusão deles próprios como obra muito astuciosa dos serviços secretos estrangeiros, ou da sabotagem em larga escala, ou de traição". Totalmente embotados pela propaganda, já não conseguiam distinguir o real e o imaginário, o que de fato viam e o que gostariam de ver. Esse dano cognitivo ultrapassou fronteiras e gerações, haja vista Anne Applebaun contar que, em conversa com um político inglês, ouviu dele que os nazistas eram perversos, mas a URSS fora desvirtuada, opinião compartilhada por Volkogonov. A pergunta cabível aqui é a de Jean François Revel (5): se o marxismo e o comunismo são intrinsecamente bons, como se explica que invariavelmente provoquem ditaduras sangrentas, todas as vezes e em todos os lugares onde são instalados?

Pela irracionalidade absoluta, custa crer nalguns relatos de Applebaun. Há, por exemplo, o de um garoto de catorze anos (!) que foi preso sob a acusação de ter organizado um grupo anarquista de cavalaria; e o de um socialista polonês que pediu que o levassem em visita a um campo de prisioneiros, para que pudesse verificar quais eram de fato as condições de vida naqueles locais. Levaram-no a um campo especial, onde ele nada viu de desumano ou perverso. Até lhe mostraram um preso que estudava para ser engenheiro. Cinco anos depois, o polonês "se viu jogado no chão de um vagão de gado superlotado, em companhia de presos muito diferentes daquele, indo para um campo que não tinha nenhuma semelhança com aquele".

No entanto, o livro de Applebaun choca infinitamente mais pelo drama humano vivido por milhões de almas - as estatísticas menos imprecisas dão conta de que mais de vinte e oito milhões de pessoas realizaram trabalhos forçados na URSS. É impossível não se sentir atingido nas entranhas ao ler o que foi a volta dos prisioneiros, após a morte de Stalin. De repente, ressurgiam milhares de pessoas, dadas como mortas havia muito tempo. Uma vez que muitas tinham sido denunciadas por parentes, amigos ou vizinhos, pode-se imaginar o que a ressurreição delas provocou às consciências. Particularmente pungente é o caso de homens que, após anos num campo de trabalho, foram libertados, tão inexplicavelmente quanto foram presos. Um dia eles são convocados a comparecer ao órgão governamental responsável pelo exame das penas e reabilitação dos condenados. Em geral, eles iam vestidos com várias camadas de roupas; sob o braço, traziam pacotes de comida. Acompanhavam-nos mulher, filhos, parentes, todos aos prantos. O funcionário então os informava de que nada havia contra eles para que tivessem sido encarcerados.

Ao final da leitura do livro, inevitavelmente se pensa em como pôde um regime assim cruel ter seduzido homens durante décadas, mesmo depois de terem começado a surgir relatos sobre o que ocorria na União Soviética. Maior é o espanto quando se pensa que ainda hoje esse inferno é o sonho social de muitos, notadamente artistas, escritores, jornalistas, músicos, professores e intelectuais. A tão sensíveis e vanguardistas pessoas a cena seguinte talvez fale diretamente. Um poeta dissidente foi convocado às falas com uma autoridade soviética:

Juiz: Qual é a sua profissão?

Brodsky: Sou poeta.

Juiz: Quem o reconhece como poeta? Quem lhe deu autoridade para se intitular poeta?

Brodsky: Ninguém. Quem me deu autorização para fazer parte da raça humana?

Juiz: Estudou para isso?

Brodsky: Para quê?

Juiz: Para ser poeta. Por que não continua os estudos numa escola onde podem prepará-lo, onde pode aprender?

Brodsky: Não acho que se possa aprender poesia.

Juiz: Como assim?

Brodsky: Acho que ela é um dom de Deus.


Notas:

(1) BESANÇON, Alain. A Infelicidade do Século - sobre o Comunismo, o Nazismo e a unicidade da Shoah. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000.

(2) HAYEK, Friedrich August von. O Caminho da Servidão. Rio de Janeiro, Instituto Liberal, 1990.

(3) VOLKOGONOV, Dmitri. Stalin - Triunfo e Tragédia. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004.(2 volumes)

(4) CARVALHO, Olavo. Aristóteles em Nova Perspectiva. Rio de Janeiro, Topbooks, 1996.

(5) REVEL, Jean François. A Grande Parada. Rio de Janeiro, Biblioteca do Exército Editora, 2001.

Fonte: MídiaSemMáscara.org

 

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