| Etnocentrismo ou Relativismo Cultural? Um Ensaio Refutativo |
|
|
|
| Escrito por Klauber Cristofen Pires | ||
| Sexta, 20 de Março de 2009 09:00 | ||
|
Diariamente, quando me dirijo à escola para levar a minha filha, deparo-me com um distinto senhor, a chegar também com um menino, presumivelmente seu filho. Um homem normal, com um semblante sereno, caminhar seguro, e um detalhe: é corcunda e possui o braço direito atrofiado. Então pensei: e o que seria da nossa sociedade se, imbuído do “tanto-faz” que a doutrina do relativismo cultural apregoa, este nobre cidadão, mui provavelmente um homem produtivo e possuidor de uma rede de pessoas a quem ama e por quem é amado, tivesse a cabeça esmagada por uma pedra na sua primeira hora de vida? Caro leitor, você já pensou nisso? Bem, agora eu pergunto: se o seu filho, recém-nascido, viesse ao mundo com síndrome de Down, você esmagaria o seu crânio com uma pedra? E se nascesse menina, você a largaria na sarjeta ou a enterraria viva? Concordaria que o governo do seu país convocasse uma filha sua para servir de objeto sexual para os nossos heróis no front de batalha? Aceita que uma jovem tenha os lábios vaginais e o clitórios cortados? Aceita que uma mulher seja apedrejada por revelar o seu rosto publicamente? Aceita viver como um paria, tal como são tratados os “intocáveis” na Índia?
Note que estas indagações nos remetem a uma questão moral filosoficamente absoluta: se não praticamos tais atos, é porque os consideramos horríveis; é porque os repudiamos in totum, e isto não tem nada a ver com o lugar em que estamos: são os valores que assumimos como verdadeiros. O fato de que sejam praticados alhures não se confunde com a presunção de aceitá-los como normais, mas sim deve-se à nossa falta de jurisdição sobre os povos que o praticam, em suma, à nossa incapacidade material de impedi-los. Se aceitarmos estas práticas como elementos culturais normais de outros povos, inescapavelmente teremos de assumir que somos indiferentes quanto a matar, mutilar ou escravizar: tertium non datur! Pois esta é a proposta do relativismo cultural tal como defendida por seus formuladores, a maioria esmagadora dos sociólogos e dos antropólogos. Sociólogos sempre afirmam serem neutros quanto à ciência que praticam, mas fazem questão de afirmar: relativismo é “bom”, e etnocentrismo é “mau” (com “u” mesmo). A quem, contrario sensu, ousar, digamos, “discutir a relação”, passa a ser rotulado como “etnocentrista”. Como se vê, a visão socio-antropológica da questão é firmemente maniqueísta e manipuladora: Escolha o seu lado, o mau, ou o bom! Cumpre-nos, pois, verificar o teor de verdade desta conceituação, e verificar se resistem a alguns fatos. Primeiro, vamos conversar sobre o Cristianismo, a doutrina fundadora de toda a civilização ocidental. Terá Jesus Cristo afirmado, em algum momento, que Sua palavra era para ser seguida somente pelos brancos, especialmente pelos europeus, logo ele, que, no plano terreno, era hebreu, e portanto, segundo as doutrinas racialistas, um membro de uma raça inferior? Ou será que Seus ensinamentos eram – e continuam sendo - de validade universal? E mais: não é um dos mais caros princípios a um cristão respeitar e amar o próximo como a si mesmo? Não é propriamente um dos seus mais basilares mandamentos? Ora, não há como escapar aqui: ou entendemos que o Cristianismo contém a Verdade, e nos esforçamos para divulgá-la, ou entendemos que tanto faz seguir o Cristianismo ou o Fetichismo de alguma tribo qualquer – afinal, tudo é mera convenção. Assim, temos de diferenciar duas coisas: respeitar e amar os outros é uma obrigação inerente à nossa própria cultura, mas isto não significa que temos de abrir mão dos nossos valores em favor dos deles, sob pena de entrarmos em um labirinto niilista e contraditório. Explico: dado em conta que os antropólogos não exigem que os relativizados comportem-se como relativistas, eles (os povos relativizados) acabam sempre se comportando como etnocentristas. Assim, como eles não abrem mão da própria cultura, nós é que, no afã de sermos “bonzinhos”, acabaremos por aceitar a deles. Então, agora sob este cenário, imaginemos que a cultura deles preveja a extinção dos estrangeiros, ou o sistema escravocrata: estaríamos estão, desde que importássemos os seus valores, permitidos a matá-los ou escravizá-los, ou, em termos mais claros, a praticar o mais vil etnocentrismo! É possível também identificar outro fator de contradição a partir do consagrado método denominado “observação participante”, criação do antropólogo Bronislaw Kasper Malinowski (1). Por meio dele, o antropólogo passa a viver junto com o povo estudado, para adquirir a sua língua e os seus costumes mediante a convivência diária. Contudo, dizem os especialistas, este método possui limitações, dado que o pesquisador não deve participar de guerras tribais ou de rituais de sacrifícios. Então aqui pergunto: por quê tanto comedimento? A ordem não é relativizar? Pois eu queria saber a opinião de um cientista que tivesse logrado fugir de um caldeirão de uma tribo de canibais! Em tempo: se levarmos esta limitação mais adiante, poderíamos formular a seguinte pergunta: como resistiria o conceito de relativismo cultural se a cultura relativizada passasse a agredir sistematicamente a cultura relativista? Aqui temos alguns exemplos muito elucidativos: creio que atualmente sejam poucas as sociedades onde o conceito de relativismo social seja mais praticado do que os países europeus. Pois bem, acompanhem a algumas notícias a seguir:
Com relação à França, surgem as lembranças das rebeliões do ano de 2005, também provocadas por imigrantes, a maioria de origem de países muçulmanos, especialmente argelinos. Esta gente, que não foi convidada, mas que buscou o país gaulês em busca de melhores condições de dignidade e de vida, recebia regularmente do governo francês toda sorte de atendimento gratuito, tal como habitação, assistência médica, educação e até mesmo proventos pagos em domicílio pelos correios! Todavia, não contentes, protagonizaram a barbárie que se viu, e hoje exigem da sociedade francesa que reconheça as tradições que fizeram as suas sociedades de origem tornarem-se tão disfuncionais. Na Dinamarca, por sua vez, algumas charges produzidas por um pequeno jornal serviram de pretexto para as mais exaltadas e violentas manifestações, dentro e fora daquele país. Tendo como pretexto a publicação em uma das figuras em que um possível rosto de Maomé é retratado com um turbante carregado de explosivos, estes imigrantes, repito aqui - não convidados - pisotearam o pavilhão daquela nação escandinava, sem o menor constrangimento em saber que naquela flâmula também se inscreve um símbolo sagrado, a cruz dos cristãos. Outro caso, particularmente interessante, é que os antropólogos conceituem o etnocentrismo como sendo característicamente “europeu” (no sentido de “branco” ou “ocidental”). Assim, por exemplo, os astecas, que subjugaram os povos militarmente mais fracos da América Central e que lhes impingiram a dominação por via do terrorismo consagrado em rituais diários de sangue, não eram “etnocentristas”, mas eram etnocentristas Cortez e os pouco mais de quinhentos homens chegados da Espanha que, com a ajuda destes povos dominados, acabaram com a festa! A propósito, sugiro ler o interessante artigo do filósofo Olavo de Carvalho “Outra História Velha” (Jornal da Tarde, 31/01/2002, disponível em http://www.olavodecarvalho.org/semana/01312002jt.htm). Agora, vamos analisar o problema da dicotomia etnocentrismo X relativismo cultural sob outro ângulo. Dadas as conceituações estabelecidas por seus próprios propositores, é um pressuposto lógico admitir que não há de coexistirem ambas as posições, a etnocentrista e a relativista, dado que são mutuamente excludentes. Pois, será correto então que venha a ser advogada uma ou outra posição, ao sabor de meras conveniências? Refiro-me aqui especialmente ao caso indigenista brasileiro. No tanto em que o etnocentrismo “do branco” não pareça incomodar os índios que vendem madeira e pedras preciosas e com o dinheiro adquiram antenas parabólicas, freezers e invejáveis caminhonetes de cabine dupla, ou quando acodem, às vezes violentamente, aos órgãos de assistência em busca de alimentos, roupas e remédios sem pagar um centavo em impostos, logo o discurso se reverte para o relativismo quando tratamos de assassinatos, estupros e antropofagia cometidos contra pessoas da dita civilização! Talvez não tenha ocorrido a tal gente que o mundo chamado de ocidental configure-se, antes disso, como “universal”. Atualmente, o mundo todo vai aos poucos assimilando as conquistas desta e daquela civilização que pareceu, de uma forma ou de outra, ter sido mais aceito. Hoje, em todo o orbe, escreve-se com tipos latinos, fala-se o inglês, calcula-se com algarismos hindu-arábicos, usam-se as mesmas notações musicais, e provam-se a comida, as vestes, a música e os elementos estético-arquitetônicos uns dos outros, e sobretudo, respeitam-se princípios básicos concernentes à vida humana e à sua dignidade, conceitos estes, frise-se, no fundo, de origem cristã. Um notável exemplo de universalismo é o Japão. Com uma cultura tardiamente medieval, jogou-se em guerra de conquista sobre outros povos, tais como a China, o sudeste asiático (Malásia e Cingapura), bem como também a Austrália e a outras nações insulares. Nestes países, agiram segundo o que realmente aqui poderia ser chamado de cultura etnocentrista: impuseram a língua japonesa como idioma oficial, e trataram de eliminar os indivíduos nativos que ocupassem posições de elite, a maioria com a cabeça decepada por reluzentes katanas (a espada samurai). Desapropriaram seres humanos pacatos, escravizaram-nos e violentaram mulheres. Isto tudo prosperou, e teria continuado se - e repito, se - depois da bomba de Hiroshima – que remédio amargo (!) - não tivessem percebido o estado de barbarismo em que viviam, e não tivessem mudado radicalmente. O próprio imperador Hiroito declarou ao mundo não ser um Deus, e todos aquelas atrocidades antes tidas como culturalmente normais foram abandonadas por toda a população, que hoje se horroriza quando as naturais exceções ocorrem, como, por exemplo, quando aconteceu o assassinato de uma diplomata japonesa, em sua residência, em Belém, por uma quadrilha de assaltantes. Creio que não seria exagero dizer, a partir dos valores que hoje consagram, que tornaram-se cristãos, embora sem o admitir formalmente. Hoje, o povo japonês, ao contrário do período que antecedeu o fim da 2ª GM, corre o mundo com ajuda humanitária e tecnológica, sua cultura é unanimemente admirada e seus costumes, antes desconhecidos do mundo ocidental, são alegremente absorvidos e consumidos no mundo todo. NOTAS: (1) Sobre Malinowski, ver http://pt.wikipedia.org/wiki/Bronis%C5%82aw_Malinowski. (4) CARVALHO, Olavo de, Alquimia da islamização. Em http://www.olavodecarvalho.org/semana/051121dc.htm . Acesso em 13/03/2009. __________________ |