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O CAMINHO DA SERVIDÃO

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( Download do livro O Caminho da Servidão [Arquivo PDF]: clique aqui! ) 

Friedrich Hayek - Parte 1

"Trata-se na minha opinião, de um grande livro. Todos nós temos razões de sobra para sermos gratos a você, por exprimir tão bem tudo aquilo que precisava ser dito... Estou moral e filosoficamente falando, virtualmente de acordo com o conteúdo integral desta obra; não sóde acordo, como de profundo e comovido acordo."

As palavras acima são de John Maynard Keynes sobre o livro "O caminho da servidão", de Friedrich August Von Hayek, escrito numa época conturbada: 1940-1943. Sim, Hayek escreveu seu livro mais famoso em Londres, durante os bombardeios alemães da Segunda Guerra Mundial e publicou-o em 1944 - quando o conflito caminhava para o seu final.

Naturalmente, toda unanimidade é burra, já nos ensinou Nelson Rodrigues. E o que se pode afirmar é o que o livro de Hayek foi tudo, menos uma unanimidade. Isso foi bom: "O caminho da servidão" animou um dos mais amplos debates teóricos que contou com a participação do próprio Keynes. Como acontece em muitas situações, houve até gente da turma do "não-li-e-não-gostei", como diz o próprio autor num dos prefácios do livro:

"Apenas para indicar o caráter da reação generalizada, mencionarei que um filósofo, cujo nome não vou citar, escreveu a outro para censurá-lo por haver elogiado essa escandaloso livro que, 'é claro, (ele) não lera'"!

"O caminho da servidão" poderia ter terminado como aqueles livros que ficam datados. Hayek mostrava toda a sua preocupação com o totalitarismo alemão - que havia levado o mundo à guerra - e com outro tipo de totalitarismo, curiosamente mais tolerado - até hoje, diga-se: - o comunismo (que às vezes atende por um nome mais "amistoso", socialismo). A tese levantada por Hayek continua, infelizmente, mais atual do que nunca: o controle dos meios de produção e serviços pelo Estado leva apenas a um único caminho: a tirania. E por que continua atual? Ora, porque essas idéias continuam ganhando força apesar da História já ter provado que elas não funcionam. Nunca funcionaram.

Em pouco mais de 200 páginas, Hayek nos fala da importância do individualismo, da proximidade entre o nazismo e o socialismo (que podem não ser gêmeos univitelinos, mas bivitelinos são com certeza), de como os regimes totalitários descaracterizam as palavras, a forma como usam a propaganda e faz, sobretudo, uma defesa intransigente da liberdade, alertando-nos que seus inimigos sempre estão por perto.

Um exercício interessante é fazer um paralelo das aflições de Hayek nos anos 40 do século passado com o que vemos hoje, sobretudo no nosso pedaço de continente.

A força do indivíduo

O desenvolvimento do comércio, da ciência, o aumento do conforto material dos trabalhadores a partir do século XIX (algo que parecia impossível um século antes) estão intimamente ligados à liberação das energias individuais. Diz Hayek:

"Onde quer que fossem suprimidos os obstáculos ao livre exercício do engenho humano, o homem logo se tornava capaz de satisfazer seu crescente número de desejos. E, se por um lado, a elevação do padrão de vida em breve levava àdescoberta de grandes mazelas na sociedade que os homens não mais estavam dispostos a tolerar, por outro lado, provavelmente, não houve classe que não se tenha beneficiado de modo substancial com o progresso geral."

Entretanto, essa liberação de forças individuais não foi percebida pelos seus defensores, mas antes pelos seus inimigos como Auguste Comte que chamou a "revolta do indivíduo contra a espécie de "eterna doença".

Hayek aproveita o livro para desmistificar certos conceitos que habitaram e ainda habitam certas cabecinhas mal iluminadas. Podemos começar com a própria filosofia do individualismo, não raro confundida com egoísmo:

"[A filosofia do individualismo] não parte do pressuposto de que o homem seja egoísta ou deva sê-lo, como muitas vezes se afirma. Parte apenas do fato incontestável de que os limites de nossos poderes de imaginação nos impedem de incluir em nossa escala valores mais que uma parcela das necessidades da sociedade inteira; e como, em sentido estrito, tal escala só pode existir na mente de cada um, segue-se que que só existem escalas parciais de valores, as quais são inevitavelmente distintas entre si e mesmo conflitantes. Daí, incluem certos individualistas que se deve permitir ao indivíduo, dentro de certos limites, seguir seus próprios valores e preferências em vez dos de outrem (...)"

Ou então à visão concebida do termo "privilégio":

"(...) a aplicação do termo 'privilégio' à propriedade como tal. Ela seria efetivamente um privilégio se, por exemplo, como sucedeu por vezes no curso da história, a propriedade de terra fosse reservada aos membros da nobreza. É privilégio também se, como sucede nos nossos tempos, o direito de produzir ou vender determinados bens é reservado pela autoridade a certos indivíduos. Mas chamar de privilégio a propriedade privada como tal, que todos podem adquirir segundo as mesmas normas, só porque alguns conseguiram e outros não - é destituir a palavra privilégio do seu significado."

Aqui podemos fazer uma parada. Hayek termina este parágrafo falando da destruição do significado de uma palavra. Acontece que os regimes totalitários são mestres nesta "arte":

"O meio mais eficaz de fazer com que as pessoas aceitem os valores aos quais terão de servir é persuadi-las de que tais valores são, na realidade, os mesmos que elas, ou pelo menos as mais esclarecidas entre elas, sempre defenderam, mas que antes não eram devidamente compreendidos ou apreciados. Leva-se o povo a abandonar os velhos deuses pelos novos, sob o pretexto de que estes são de fato como por instinto supunham que fosse, embora até o momento sóo percebessem de maneira vaga. E a técnica mais eficiente para a consecução desse fim é continuar a usar as velhas palavras, alterando-lhes, porém, o sentido. Poucos aspectos dos regimes totalitários despertam tanta confusão no observador superficial e são, ao mesmo tempo, tão caraterísticos do clima intelectual desses sistemas, como a completa perversão da linguagem, a mudança de sentido das palavras que expressam os ideais dos novos regimes.

Nesse contexto, a palavra mais deturpada é, evidentemente, 'liberdade', um termo tão usado nos Estados totalitários como em qualquer outro lugar. Pode-se mesmo dizer que, sempre que a liberdade que conhecemos foi aniquilada, isso se fez em nome da nova liberdade prometida ao povo.
"


Lendo este trecho tem-se a impressão de que George Orwell se baseou nele para criar a newspeak, a novilíngua, de seu romance "1984".

Elementos do liberalismo

Hayek é considerado um fanático do liberalismo por Mario Henrique Simonsen. Meu "assessor para assuntos econômicos", Adílson Dessandre, me manda um texto onde o ex-ministro o lista entre os três maiores fanáticos da Economia ao lado de Milton Friedman e Karl Marx. Não vou discutir com gente que entende mais do que eu. Fanáticos, no entanto, acreditam que nada deva ser mudado. Fanáticos são inflexíveis. Hayek, ao menos, acreditava que havia o que se aperfeiçoar:

"Os princípios básicos do liberalismo não contêm nenhum elemento que o faça um credo estacionário, nenhuma regra fixa e imutável. (...) Talvez nada tenha sido mais prejudicial à causa liberal do que a obstinada insistência de alguns liberais em certas regras gerais primitivas, sobretudo o princípio do laissez-faire."


E mais:

"A impaciência crescente em face do lento progresso da política liberal, a justa irritação com aqueles que empregavam a fraseologia liberal em defesa de privilégios anti-sociais, e a ilimitada ambição aparentemente justificada pela melhoria material já conquistada fizeram com que, ao aproximar-se o final do século [XIX], a crença nos princípios básicos do liberalismo fosse aos poucos abandonada. (...) Já não se tratava de ampliar ou melhorar o mecanismo existente, mas de descartá-lo e substituí-lo por outro."


Autoristarismo: sem ele, não há socialismo

Já estamos cansados de saber que, de boas intenções o inferno está cheio. Mas os socialistas, a bem da verdade, nunca esconderam nada de ninguém. Desde que a sementinha foi plantada o negócio é tornar um homem igual ao outro. Na marra, se preciso for:

"Quase não nos ocorre hoje que o socialismo era, de início, francamente autoritário. Os autores que lançaram as bases do socialismo moderno não tinham dúvida de que suas idéias só poderiam ser postas em prática por um forte governo ditatorial. (...) No que se referia à liberdade, os fundadores do socialismo não escondiam suas intenções. Eles consideravam a liberdade de pensamento a origem de todos os males da sociedade do século XIX, e o primeiro dos planejadores modernos, Saint-Simon, chegou a predizer que aqueles que não obedecessem às comissões de planejamento por ele propostas seriam 'tratados como gado'."


Fecho então com uma citação de Alexis de Tocqueville, autor de "A democracia na América":

"A democracia amplia a esfera da liberdade individual, o socialismo a restringe. A democracia atribui a cada homem o valor máximo; o socialismo faz de cada homem um mero agente, um simples número. Democracia e socialismo nada têm em comum exceto uma palavra: igualdade. Mas observe-se a diferença: enquanto a democracia procura a igualdade na liberdade, o socialismo procura a igualdade na repressão e na servidão."

Aqui, encerro a primeira parte.

 

Publicado originalmente em: http://estantedolivreiro.blogspot.com

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