Nos tempos anteriores à ascendência do liberalismo, os indivíduos que professavam um certo credo religioso formavam uma ordem, uma casta. O credo determinava a posição do membro no grupo, o qual designava a cada membro os privilégios e as desqualificações (privilegia odiosa). Só num número reduzido de países o liberalismo aboliu este estado de coisas. Em muitos países europeus, nos quais o respeito à liberdade de consciência e de prática religiosa e a igualdade de todos os cidadãos perante a lei estavam garantidas, as leis de casamento e o registro de nascimentos, casamentos e óbitos permaneceram separados para cada grupo religioso. A condição de membro de uma igreja ou comunidade religiosa preserva um caráter legal peculiar. Todo cidadão deve pertencer a um dos grupos religiosos e lega esta qualidade a seus filhos. A condição de membro e os procedimentos a serem observados no caso de troca de crença religiosa são regulamentadas em lei. Situações especiais estão previstas para aquelas pessoas que não querem pertencer a nenhuma comunidade religiosa. Tal estado de coisas permite determinar a fidelidade religiosa de cada pessoa e de seus ancestrais com precisão legal, da mesma forma que o parentesco para o efeito de herança.
A importância deste fato pode ser elucidada pelo contraste com as condições de pertencer a grupos lingüísticos. Pertencer a um grupo lingüístico não confere nenhuma qualidade de casta. É um fato aleatório, não um status legal. É geralmente difícil determinar o grupo lingüístico dos ascendentes já mortos de alguém. As únicas exceções são aqueles ancestrais que foram personalidades eminentes, escritores ou líderes políticos de grupos lingüísticos específicos. É também de maneira geral impossível determinar se alguém mudou seu idioma em algum momento passado. Quem fala alemão e se declara alemão raramente teme que esta afirmativa possa ser provada falsa por evidência documental de que seus pais ou ele mesmo não foram alemães no passado. Mesmo um sotaque estrangeiro não o trairia, pois em países de população lingüisticamente mista, o sotaque e a inflexão de cada grupo exerce influência nos demais. Entre os líderes do nacionalismo germânico nas áreas mais orientais da Alemanha, ou na Áustria, Tchecoslováquia e outros países do leste, existem inúmeras pessoas que falam alemão com forte sotaque eslavo, húngaro ou italiano, cujos nomes soam como se fosse estrangeiros ou que teriam recentemente trocado seus nomes de sonoridade germânica por outros nativos. Até mesmo membros das Tropas de Assalto Nazistas eram filhos de pessoas que não entendiam o alemão. Freqüentemente até mesmo irmãos pertenciam a grupos lingüísticos diversos. Seria impossível qualquer discriminação contras tais neófitos, porque seria impossível determinar os fatos de forma legalmente inquestionável.
Numa sociedade de livre mercado não há discriminação legal contra ninguém. Todos têm direito a seu lugar no sistema social, dentro do qual poderão trabalhar e ganhar a vida. O consumidor é livre para escolher o que quer comprar, desde de que pague o preço. Um Tcheco ou um Polonês pode preferir pagar mais caro na loja de um eslavo do que mais barato e melhor em outra de um alemão. Um anti-semita pode abrir mão de ser curado por uma droga produzida por um Judeu e usar um remédio comprovadamente menos eficaz. É neste poder arbitrário que está o que os economistas chamam de soberania do consumidor.
Intervencionismo significa discriminação compulsória ao proteger os interesses de uma minoria às expensas da maioria. No entanto, a discriminação pode existir até mesmo numa sociedade democrática. Vários grupos minoritários podem formar uma aliança, tornando-se majoritário, para obter privilégios para cada um deles. Por exemplo, os produtores de trigo, os criadores de gado e os vinicultores podem formar um partido agrário e conseguir discriminar os competidores estrangeiros obtendo, com isto, privilégios para cada um dos três grupos. O custo dos privilégios dos vinicultores recaem sobre o resto da comunidade – incluindo os criadores de gado e os produtores de trigo – e assim por diante.
Quem quer que veja os fatos sob esta ótica – e, na verdade, não existe outra – percebe que os argumentos a favor de qualquer privilégio são indefensáveis. Um único grupo minoritário não pode obter tais privilégios porque a maioria não toleraria. Mas se todos os grupos minoritários – ou uma quantidade suficiente deles – consegue um privilégio, qualquer grupo que não o consiga, sofrerá as conseqüências. A ascendência política do intervencionismo é devida à incapacidade de reconhecer esta verdade óbvia. As pessoas preferem discriminação e privilégios porque não percebem que elas mesmas são os próprios consumidores, e como tais, pagam a conta. No caso do protecionismo, por exemplo, as pessoas acreditam que só os estrangeiros sofrem com as taxas de importação. Mas isto é só parte da verdade: os consumidores pagarão preços mais altos – e sofrerão juntos.
Aonde quer que existam minorias judaicas – e eles são minoria em todos os países – é fácil discrimina-los legalmente como aos estrangeiros, porque a qualidade de ser um Judeu pode ser estabelecida de forma legal. A discriminação contra as minorias indefesas pode até ser aceita como plausível, pois parece defender os interesses de todos os não-Judeus. A população não se dá conta de que certamente ofende os interesses dos não-Judeus também. Se os Judeus são impedidos de seguir a carreira médica, os interesses dos médicos não-Judeus são defendidos, mas não o interesse dos doentes, que são prejudicados. Seu poder de escolher o médico de sua confiança é restringido. Aqueles que não quisessem consultar um médico Judeu não ganham nada, mas o que os preferiam saem perdendo.
Em muitos países europeus é possível discriminar legalmente os Judeus e seus descendentes. É ainda mais possível a discriminação política porque os Judeus são geralmente minorias insignificantes em termos de votos. E, finalmente, tal discriminação é considerada legítima numa época em que o governo está empenhado em proteger os produtores menos eficientes contra os mais eficientes e baratos e obtém apoio público para estas práticas. O dono de armazém não-Judeu pergunta, por que não me proteger também? Se o governo protege os industriais e os fazendeiros contra a concorrência externa que produz melhor por menor preço; se protege o operário contra a competição com os imigrantes; também deveria me proteger contra meu vizinho Judeu.
Discriminação não tem necessariamente a ver com ódio ou repugnância contra os discriminados. Os suíços e italianos não odeiam os americanos ou os suecos, mas discriminam seus produtos. Ninguém gosta de competição. Mas para o consumidor os estrangeiros que fornecem mercadorias não são competidores, mas simplesmente fornecedores. O médico não-Judeu pode odiar seu competidor Judeu, mas ele exige a expulsão do último exatamente porque muitos pacientes não-Judeus não somente não odeiam médicos Judeus como os preferem. O fato de que as leis raciais Nazistas impõem grandes penas por relações sexuais entre Judeus e “Arianos” não indica a existência de ódio entre os dois grupos. Por que se proibiriam as relações sexuais entre pessoas que se odeiam? Numa investigação dos problemas políticos do nacionalismo e do Nazismo não é necessário entender nenhuma patologia sexual envolvida. Estudar os sentimentos de inferioridade e as perversões sexuais responsáveis pelas leis raciais de Nüremberg e as bestialidades sádicas cometidas contra os Judeus, é tarefa para a psiquiatria.
Num mundo em que as pessoas entendem o significado da economia de mercado – e, conseqüentemente, defendem uma política voltada para o consumidor - não há discriminação contra os Judeus. Quem quer que não goste de Judeus simplesmente evitará lojas, médicos ou advogados Judeus. Por outro lado, num mundo intervencionista, só um milagre impedirá a discriminação legal contra eles. A política de proteger os ineficientes produtores internos contra os mais eficientes produtores estrangeiros, o artesão contra o industrial e o pequeno comércio contra as lojas de departamentos, levará inevitavelmente à proteção dos “Arianos” contra os concorrentes Judeus.
Várias décadas de propaganda anti-semita não impediram os alemães “Arianos” de comprar em lojas de propriedade de Judeus, de consultar médicos ou advogados Judeus ou de ler livros de autores judaicos. Não havia realmente proteção aos Judeus – os concorrentes “Arianos” tinham muito cuidado de dizer que estas pessoas eram Judeus. No entanto, quem quisesse se livrar de seus concorrentes Judeus não poderia confiar somente no ódio a eles, mas precisava exigir a discriminação legal.
Esta discriminação não é o resultado de nacionalismo ou racismo. É, basicamente – como o nacionalismo – o resultado do intervencionismo e da política de favorecimento dos produtores ineficientes, com grandes prejuízos para os consumidores.
Quase todos os escritores que se dedicaram ao problema do anti-semitismo tentaram demonstrar que os Judeus tem, de uma maneira ou de outra, através de comportamentos ou atitudes, estimulado o anti-semitismo. Até mesmo autores Judeus ou outros que se opõem ao anti-semitismo partilham desta opinião. Também procuram defeitos nos Judeus que seriam a causa do anti-semitismo. Mas se a investigação das causas do anti-semitismo tivessem algo a ver com características próprias a eles, só poderia resultar na descoberta de extraordinárias virtudes e méritos – o que os qualificaria como a elite da humanidade. Se os próprios Judeus devem ser acusados pelo fato de que aqueles para os quais o ideal é a perpétua guerra e banhos de sangue, que adoram a violência e desejam ardentemente destruir a liberdade, os consideram os mais perigosos oponentes, deve ser porque os Judeus são os principais defensores de liberdade, justiça e cooperação pacífica entre as nações. Se os Judeus incorreram no ódio Nazista por sua própria conduta, sem dúvida será porque o que há de maior e mais nobre na nação Germânica, todas as realizações imortais do passado alemão, foram conseguidos pelos Judeus ou são afins da mentalidade judaica. Como os partidos que tentam destruir a civilização moderna e retornar à barbárie colocaram o anti-semitismo nos primeiros itens de seus programas, é porque esta civilização é aparentemente criação dos Judeus. Nada mais lisonjeiro pode ser dito de um indivíduo ou grupo de que os inimigos mortais da civilização têm fundadas razões para persegui-los.
A verdade é que enquanto os Judeus são o objeto do anti-semitismo, sua conduta e qualidades não influíram decisivamente na moderna provocação e disseminação. O fato de que eles sejam sempre uma minoria que pode ser legalmente definida, torna tentador discrimina-los, numa época de intervencionismo. Os Judeus certamente contribuíram para o aparecimento da civilização moderna, embora ela não seja total nem predominantemente realização judaica. Paz e liberdade, democracia e justiça, razão e pensamento, não são especificamente Judeus. Muitas coisas boas ou más ocorrem na Terra sem a participação dos Judeus. Os anti-semitas exageram grosseiramente quando vêem nos Judeus os principais representantes da cultura moderna e os tornam os únicos responsáveis pelas mudanças ocorridas no mundo desde os tempos das invasões bárbaras.
Na idade das trevas, Cristãos e Muçulmanos perseguiram os Judeus por sua religião. Este motivo perdeu muito de sua força e só é ainda válido para poucos Católicos e Fundamentalistas que culpam os Judeus pela disseminação do livre pensamento. E até isto está errado. Nem Hume, Kant, Laplace ou Darwin eram Judeus. A crítica mais contundente à Bíblia é obra dos teólogos Protestantes. Os Rabinos se opuseram tenazmente a ela por muitos anos.
Nem o liberalismo, o capitalismo ou a economia de mercado foram realizações judaicas. Existem os que tentam justificar o anti-semitismo denunciando os Judeus como capitalistas e defensores do laissez faire. Outros anti-semitas – geralmente os mesmos – culpam os Judeus de serem comunistas. Estas acusações contraditórias se cancelam mutuamente. Mas é um fato que a propaganda anticapitalista contribuiu muito para a popularidade do anti-semitismo. Mentes simplórias não conseguem entender o significado abstrato de termos como capital e exploração, capitalistas e exploradores, e os substituem por Judaísmo e Judeus. No entanto, mesmo que os Judeus fossem mais impopulares com algumas pessoas do que é o caso, não haveria discriminação se eles não constituíssem uma minoria claramente distinguível em termos legais.
(Ludwig von Mises, 1944. Publicado por mises.org, em 31/03/2004) Tradução - Heitor de Paola
Fonte: Mídia Sem Máscara









